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Mamãe eu quero

Foto: Mamãe eu quero

  Cenas inusitadas ou curiosas acontecem a todo momento em todo o globo terrestre. Antigamente, os fotógrafos que por aí circulavam eram poucos, poucos mesmo. Com isso, muitos pensam que sobravam momentos para registrar. Eu penso que não. Faltavam olhares e câmeras para registrar tudo o que acontecia. Devemos ter perdido a chance de registrar muita coisa mesmo. 

 Os poucos felizardos, como os grandes nomes da fotografia que hoje cultuamos, assim como aqueles anônimos, como foi Vivian Maier até pouco tempo atrás, eternizarem cenas memoráveis. Cenas realmente dignas de estarem guardadas para a posteridade. Isso foi ótimo, mas vocês não acham ue se na época existissem mais fotógrafos não teríamos muitas outras fotos icônicas? Somos criaturas estranhas e ao mesmo tempo interessantes. No passados, por questões culturais ou costumes peculiares  e particulares da época, eramos tão ou mais interessantes que hoje.

 Nos dias atuais, existem talvez mais fotógrafos em potencial circulando no mundo, do que a população existente na época em que a fotografia surgiu. E não tenho medo de afirmar isso e parecer bobo por um simples fato, a tal evolução chamada de "mobigrafia". Aprendi tempos atrás que o verdadeiro pilar central da fotografia é a "câmara obscura". Sem ela, não há fotografia. Ou há? Sim meus nobres leitores, amigos, colegas e quiça marcianos... Eu acredito que sim. Para elucidarmos essa afirmação, voltemos ao passado. A tal câmara obscura, ou câmera escura como também é conhecida, é um compartimento onde está armazenado o material foto-sensível que registrará a cena pretendida. Ela precisa  ser quase hermética, e o quase se dá pelo obturador, que se abre por um período de tempo específico, controlado pelo fotógrafo, para que o material foto-sensível não sofra exposição indesejada. O feixe de luz colimada pelos grupos de lentes são projetados de maneira precisa na intenção de formar uma imagem em foco no material foto-sensível. 

 Mas e hoje? Com essa tal evolução chamada mobigrafia, onde está o material foto-sensível? Onde está a câmara obscura? Nos celulares, tudo isso é completamente "diferente"? Acredito que sim. O sensor está o tempo todo exposto, e não há um obturador para impedir a exposição dele ao feixe de luz. A abertura do diafragma é fixa. E devido as dimensões diminutas de todo o conjunto, a variação da distância focal é milimétrica e controlada de uma forma totalmente diferente da que estamos acostumados. É meus caros, não há como contestar essa evolução. E falei isso tudo apenas para ilustrar sobre a facilidade que temos à disposição hoje em dia. Se compararmos com o passado, fotografar hoje pode ser quase um ato comum e natural para todos. As selfies que os digam.

 Ah! as selfies. Elas são talvez a maior causadora de asco e enjoos dos fotógrafos conservadores. Isso porque para eles, as selfies não trazem consigo nenhuma mensagem. As vezes penso que isso seja um certo exagero. Penso isso porque elas são também uma maneira moderna de expressarmos sentimentos. Uma selfie pode revelar muita coisa, pois é um autorretrato. E como sabemos, a forma ao qual nos enxergamos em relação ao mundo é muito mais reveladora do que um simples relato pessoal. As vezes penso que as selfies podem ser uma auto-terapia, onde muitos contam ao mundo em forma de análise, tudo aquilo que guardam em suas intimidades.

 É, os smartphones são mesmo a grande invenção do novo milênio. Muitas pessoas estão tão dependentes deles, que um momento sem eles por perto chega a lhes causar  uma ataque de pânico. Esses dias ficamos sem internet em casa por dois dias inteiros. Meu moleque redescobriu muitos brinquedos por conta disso. Isso foi bom. Tanto que me levou a escrever esse artigo. A tecnologia é maravilhosa e ao mesmo tempo pode ser nociva. Como falei antes, poucos foram os fotógrafos no passado. Enquanto que hoje, só no Brasil temos mais de um celular por habitante, e se levarmos em consideração que quase todos tem uma câmera acoplada, teremos andando por aí miseravelmente mais de 100 milhões de câmeras fotográficas. Isso se considerarmos que apenas 50% dos aparelhos sejam smartphones com câmeras. A chance de registrar grandes momentos cotidianos aumentou exponencialmente. Mas parece que todos só se importam em fazer a tal "auto-terapia". Sentem uma necessidade incontrolável de contar para o mundo tudo aquilo que fazem. É uma pena, creio eu.

 Por isso, ando pensando seriamente em criar um canal apenas para falar e divulgar a mobigrafia de forma análoga a fotografia clássica. O intuito é estimular a cultura fotográfica nesse imenso mar de indivíduos que podem ser fotógrafos. Inúmeras são as ferramentas de tratamento de fotografias disponíveis gratuitamente para os smartphones. Existem diversos aplicativos, muitos deles gratuitos, que habilitam uma espécie de simulação dos controles manuais de uma câmera normal nos celulares, inclusive permitindo exportar as imagens em RAW. As possibilidades são praticamente infinitas, bastando ter o desejo de fotografar com critério e certa técnica. O resto ficará por conta da sensibilidade ou imaginação de cada um.

 Não seria maravilhoso ver crianças circulando por aí e fotografando tudo o que vêem? Meu filho é um que adora pegar a câmera que dei a ele e sair fotografando o que dá na cabeça. Adora fazer vídeos sobre seus brinquedos e sobre as coisas que gosta. Não duvido que as demais crianças também sintam essa vontade de fotografar, porque é curioso e também por ser uma atividade cheia de dinâmica e interatividade com o meio e com as pessoas ao redor. A curiosidade pode mover tantas montanhas quanto a fé. E quem sabe um dia possamos ouvir as crianças dizendo, "mamãe, eu quero fotografar".

Viva a Fotografia! 

 

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