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Fases e frases.

Foto: Metrô

 

 Somos realmente seres mutantes. Estamos sempre nos moldando conforme nossos interesses e necessidades. No aprendizado é a mesma coisa. O problema é a autocrítica. Normalmente nossa porção herdada de Narciso não nos permite realizar tal censo da forma correta, ou melhor dizendo, da forma como usamos com terceiros. Uma pena.

 Vez ou outra na fotografia vejo pessoas vivenciando os ciclos iniciais por qual passei. Todos, sem exceção, os repetem de forma contumaz. Alguns infelizmente se perdem num loop em algumas das fases, destruindo as chances de evolução.

 Dentre as fases que passei, algumas são realmente nocivas. A seguir, tentarei descrevê-las de maneira individual, lembrando que dependendo do indivíduo, elas podem apresentar-se em ordem diferente.

"O Encanto" - Descoberta de que a Fotografia é muito mais do que apertar um botão. Vemos um novo horizonte a nossa frente. A chance de mostrar ao mundo uma porção daquilo que só nós vimos, da forma que vimos de fato. Geralmente inebria, entorpece o indivíduo de forma violenta. Isso acaba arrebatando aqueles que realmente tem uma certa paixão pela arte fotográfica.

"O Dilema" - Hoje, diante de um universo de possibilidade e opções, o indivíduo se vê numa encruzilhada mortífera. Milhares de "especialistas" e "photographers" dizendo aquilo que serve e o que não serve na fotografia. Youtubers ditando regras e conceitos aos quais nem sabem de fato do que tratam, o que regem. Um mercado saturado de marcas, preços e modelos pronto para devorar a mente e o bolso do inexperiente. Muitos sucumbem nessa fase.

"O Choque de Ralidade" - Escolhido o equipamento e seus acessórios, vem o choque de não saber de fato como conseguir aquele resultado desejado. Nessa importante fase é que se definem aqueles que realmente aprenderão a fotografar e a respeitar a arte fotográfica daqueles que entrarão no ciclo vicioso da próxima fase. Aqui é que surge o entendimento de que estudar é fundamental. e que o equipamento é ferramenta, porque não age sozinho, precisa de um bom operador para extrair seu máximo e de um artista para transformar o comum, o ordinário em algo genial. O problema é que o imediatismo e a preguiça ou busca pela facilidade distorcem o entendimento de estudo, levando a estudar com quem não tem lá muita coisa pra ensinar.

"A Graça Divina" (termo dito pelo colega Ivan Almeida) - Essa é a pior fase. Nela é que a maioria fica presa, se alimentando de algo vazio. Todos que entram nessa fase são movidos a elogios, likes, views e outros índices que na verdade não mensuram droga nenhuma. A vaidade aflora, encobrindo qualquer possibilidade de evolução. Começam a disparar a esmo frases de terceiros apenas para demonstrar que sabem de algo. Chegam a ser deprimente alguns comentários feitos por pessoas nessa fase, porque todos quase sempre questionam os colegas de forma pejorativa, mas quem os faz sequer entende de fato sobre arte, seus valores e conceitos. Aqui surgem os "auto-títulos", os "photographers" e as formações e pós graduações no Youtube. Quase todas com gente que mal sabe o que fala. O interessante é que no Youtube há gente séria, que ensina fotografia básica de fato. Mas esses não tem muito valor, simplesmente porque falam a realidade na lata e isso espanta os iludidos, principalmente aqueles que se encontram na tal fase da graça divina.

"A Depressão" - Passado o deslumbre da fase anterior, o até então "photographer" se dá conta de que é um merda. Desculpem o termo, mas essa é a realidade. De cada 100 fotografias feitas, uma se salva de fato. Essa "uma", que deveria servir de exemplo ou base de estudo para continuar na evolução, é simplesmente descartada ou esquecida, porque na maioria dos casos ela não rendeu "likes". Mas ela quase sempre traz consigo o que é fundamental na fotografia, que é uma mensagem. Afinal, é pra isso que a fotografia serve, expressar mensagens e sentimentos através de imagens, através da luz. O problema é que não é simples esse tipo de escrita. E como tudo o que o sujeito produz já não dá mais "ibope", ele começa a culpar uma série de coisas, quase sempre em primeiro lugar quem apanha é o equipamento. Upgrades, novas lentes e apetrechos são encarados como solução. Dividas adquiridas, equipamentos comprados, surgem os resultados? Muitas vezes a resposta é não. O que sobra? A depressão. Aqui, os últimos indivíduos que lá atrás começaram a jornada, chegam à prova final. Se deparam com aquilo que de maneira inconsciente acreditavam ser o único mal até então remediável; Estudar.

"A Sobriedade" - Quem supera a fase anterior está a meio caminho da estabilidade. Essa fase é interessante, pois ela te faz enxergar tudo sem filtros, sem ilusões. O que é, é de fato. Nela a auto-crítica funciona como um relógio suíço. Não há espaço para holofotes. Nela, aprendemos a apreciar a arte alheia despido de pudores ou preconceitos. Isso é um baita aprendizado. Vem o interesse pela leitura e pelos cursos. Fotografia passa a ser feita com tranquilidade, serenidade. Contemplação é a base de quase todas as fotografias feitas nessa fase. As conversas com outros colegas quase sempre tem o tom de alerta, mas sempre feito de forma branda, quase sempre imperceptível para não frustrar ou criar inimizades. Essa fase é repleta de libertações. Não há mais neuras com nitidez, com foco cravado, com equipamento top. Nada disso faz mais sentido, apenas a mensagem ou a força da fotografia a ser feita. Aqui é que começa a jornada fotográfica de uma vida.

A próxima fase? Quando eu chegar nela, explico pra vocês em outro texto.

Vamo que vamo!

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