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| Foto: Pombo ferido |
Pensei em escrever uma fábula, mas acho que meus dotes não me permitem tal façanha. Isso é tarefa para escritores de verdade, como o querido amigo Ricardo Labuto Gondim. Teólogo e escritor, Ricardo tem publicados livros interessantíssimos. Dentre eles o livro "B", um misto de realidade e ficção que envolve a presença do nazismo no Brasil. Recomendo!
Voltando a idéia da fábula, acho que vou arriscar assim mesmo.
Bem, veremos se consigo...
Era uma vez um Pombo chamado Pepeu. Pássaro fagueiro que vivia a ciscar aqui e acolá, teve sua história de vida começada no Centro da cidade do Rio de Janeiro. De família numerosa, Pepeu nasceu de uma ninhada de quatro ovos, mas ele fora o único que vingou. Nascido e criado nas cercanias do Campo de Santana, Pepeu teve vida farta na infância e pode aproveitar tudo o que a arquitetura do local tinha a lhe oferecer.
Ao longo de sua vida, alçou vôos incríveis. Ora bolas, também não seria pra menos, pois Pepeu nasceu na cidade maravilhosa, cheia de encantos mil e paraíso para qualquer ave de sua espécie. Esteve em vários cartões postais da cidade. Fez ninho no alto do Pão de Açúcar. Pairou sobre a baía da Guanabara. Até deu uma bela cagada no ombro do Cristo Redentor. Vida de rei tinha esse pombo.
Até que um dia ele descobriu um recanto remoto da cidade. Era uma ilhota perdida lá pelas bandas da zona norte. Foi local de grandes eventos históricos e também foi até refúgio do Governador. Hoje só figura em destaque nas manchetes dos periódicos por conta das mazelas da sociedade atual.
Como qualquer ser que se preze, Pepeu sentiu a necessidade de perpetuar sua espécie. Decidiu pousar num só galho, para dele poder se orgulhar como sendo só seu. Achou uma companheira e fez seu ninho. Mas seu instinto não o permitiu de ficar sossegado. Tinha que permanecer ciscando as migalhas que seres estranhos e gigantes teimavam em espalhar pelas calçadas da cidade.
Perto de seu ninho havia uma série de construções estranhas. Locais que os tais seres gigantes usavam para trocar coisas entre si. Num deles havia um movimento diferente, pois ali os seres sentavam e comiam uma espécie massa quadrada e amarelada que Pepeu ouvia todos eles chamarem de "pastel". Pepeu não fazia ideia do que era feito aquilo. Apenas percebia que ao comerem tal iguaria, os seres gigantes espalhavam muitas migalhas pelo chão. Pepeu pensava consigo sobre tal desperdício, mas por outro lado enxergava uma bela oportunidade de ter alimento em abundância naquele local.
E assim foi. Pepeu provou da iguaria e se apaixonou. O pássaro outrora ressabiado que ciscava com calma na calçada uma migalha ou outra, agora ia confiante tomar posse do que julgava seu. "O sabor é fabuloso", pensava Pepeu. Crocante, gorduroso e cheio de sabor, o tal pastel conquistou Pepeu, fazendo-o crescer de tamanho rapidamente. Em pouco tempo, Pepeu já se sentia o rei do local. Regulava a presença de outros pombos que ali chegavam e até mesmo fez amizade com Joel, um cachorro sem raça definida que por ali também ficava.
Certo dia Joel se aproximou de Pepeu e o advertiu sobre os seres gigantes daquele local. Em especial, Joel, falava de um meninote, filhote dos seres gigantes, que passava seu tempo atormentando a vida dos demais animais que ali ficavam. Pepeu deixou Joel tranquilo, alegando que era ágil e conseguia esquivar-se, pois tinha o dom de voar. Dom esse que os seres gigantes jamais conseguiram usufruir de forma natural. Joel ainda preocupado, já que tivera uma vida dura nas ruas daquele local, insistiu com Pepeu para ter cuidado.
Voltando a idéia da fábula, acho que vou arriscar assim mesmo.
Bem, veremos se consigo...
O Pombo e o pastel
Era uma vez um Pombo chamado Pepeu. Pássaro fagueiro que vivia a ciscar aqui e acolá, teve sua história de vida começada no Centro da cidade do Rio de Janeiro. De família numerosa, Pepeu nasceu de uma ninhada de quatro ovos, mas ele fora o único que vingou. Nascido e criado nas cercanias do Campo de Santana, Pepeu teve vida farta na infância e pode aproveitar tudo o que a arquitetura do local tinha a lhe oferecer.
Ao longo de sua vida, alçou vôos incríveis. Ora bolas, também não seria pra menos, pois Pepeu nasceu na cidade maravilhosa, cheia de encantos mil e paraíso para qualquer ave de sua espécie. Esteve em vários cartões postais da cidade. Fez ninho no alto do Pão de Açúcar. Pairou sobre a baía da Guanabara. Até deu uma bela cagada no ombro do Cristo Redentor. Vida de rei tinha esse pombo.
Até que um dia ele descobriu um recanto remoto da cidade. Era uma ilhota perdida lá pelas bandas da zona norte. Foi local de grandes eventos históricos e também foi até refúgio do Governador. Hoje só figura em destaque nas manchetes dos periódicos por conta das mazelas da sociedade atual.
Como qualquer ser que se preze, Pepeu sentiu a necessidade de perpetuar sua espécie. Decidiu pousar num só galho, para dele poder se orgulhar como sendo só seu. Achou uma companheira e fez seu ninho. Mas seu instinto não o permitiu de ficar sossegado. Tinha que permanecer ciscando as migalhas que seres estranhos e gigantes teimavam em espalhar pelas calçadas da cidade.
Perto de seu ninho havia uma série de construções estranhas. Locais que os tais seres gigantes usavam para trocar coisas entre si. Num deles havia um movimento diferente, pois ali os seres sentavam e comiam uma espécie massa quadrada e amarelada que Pepeu ouvia todos eles chamarem de "pastel". Pepeu não fazia ideia do que era feito aquilo. Apenas percebia que ao comerem tal iguaria, os seres gigantes espalhavam muitas migalhas pelo chão. Pepeu pensava consigo sobre tal desperdício, mas por outro lado enxergava uma bela oportunidade de ter alimento em abundância naquele local.
E assim foi. Pepeu provou da iguaria e se apaixonou. O pássaro outrora ressabiado que ciscava com calma na calçada uma migalha ou outra, agora ia confiante tomar posse do que julgava seu. "O sabor é fabuloso", pensava Pepeu. Crocante, gorduroso e cheio de sabor, o tal pastel conquistou Pepeu, fazendo-o crescer de tamanho rapidamente. Em pouco tempo, Pepeu já se sentia o rei do local. Regulava a presença de outros pombos que ali chegavam e até mesmo fez amizade com Joel, um cachorro sem raça definida que por ali também ficava.
Certo dia Joel se aproximou de Pepeu e o advertiu sobre os seres gigantes daquele local. Em especial, Joel, falava de um meninote, filhote dos seres gigantes, que passava seu tempo atormentando a vida dos demais animais que ali ficavam. Pepeu deixou Joel tranquilo, alegando que era ágil e conseguia esquivar-se, pois tinha o dom de voar. Dom esse que os seres gigantes jamais conseguiram usufruir de forma natural. Joel ainda preocupado, já que tivera uma vida dura nas ruas daquele local, insistiu com Pepeu para ter cuidado.
Pois é minha gente, Joel estava certo. Pepeu, que havia descoberto um local de fartura; que tinha pensado estar com o "boi na sombra"; que já havia voado por tudo quanto é lado, caiu na armadilha do filhote de ser gigante. Por conta de sua dieta, Pepeu havia ganho peso. Aquela agilidade de outrora estava comprometida. O sabor do famigerado pastel era muito bom, mas ainda cobraria o seu preço.
Numa tarde de sexta, Pepeu fazia como de costume, e ciscava na frente daquela construção que fabricava os pastéis. Do nada, o filhote de ser gigante se aproximou e bateu suas mãos de forma a fazer um baita estrondo. Assustado com aquele golpe, Pepeu bateu asas de forma abrupta e alçou vôo, porém este foi raso, não dando chances de fuga a Pepeu. Ofegante e assustado, Pepeu ainda se debatendo no chão, tentava recobrar o fôlego para sair dali.
Joel assistia atônito a tudo o que estava acontecendo do outro lado da rua. Tentou ir até o local, mas os monstros de metal que corriam pelo asfalto não o permitiam socorrer o amigo emplumado. Foi quando olhou novamente, e numa espécie de "câmera lenta", percebeu o filhote de ser gigante novamente se aproximar de Pepeu, que ainda estava ofegante, porém quase apto a voar pra longe dali.
Quando menos se esperou, o moleque bateu palmas novamente. Mais uma vez tomado pelo pavor do estrondo, Pepeu tentou voar alto e fugir daquele tormento. Ao tentar voar ainda atordoado, Pepeu bateu numa parede invisível que cobria a frente da construção. Atrás dessa parede ficava a perdição de qualquer ave. Feita de metal prata e reluzente e cheia de um líquido amarelo turvo borbulhante, aquele tacho parecia a verdadeira encarnação do inferno dos pássaros.
Ao trombar com essa parede invisível, Pepeu perdeu os sentidos e caiu direto no tacho fervente. Lá dentro, Pepeu cumpriu sua sentença encontrando-se não somente com o único mal irremediável, mas também com aquele que lhe alimentara por boa parte da vida e que era a fonte de toda esta tragédia, o pastel. Naquela fração de segundo, Pepeu viu sua vida passar diante dos olhos. Lembrou de tudo o que viveu, por onde voou, e até mesmo em quantos seres gigantes havia batizados com seus excrementos. Num ultimo momento, percebeu que aquele que antes era seu alimento, jazia ali como igual, boiando num mar de óleo quente, esperando apenas pela morte que fora anunciada através de uma comanda. O pastel cobrou seu preço.
E assim morreu Pepeu. Ave fagueira traída pelo alimento e que teve como algoz o filhote de ser gigante. Nunca mais iria arrulhar por aquelas bandas. Sua família já não via mais sentido em ficar por alí. Sobrava apenas o vazio para Joel. Que numa profunda tristeza, resolveu ir embora também.
Moral da estória: Aproveite bem a vida! Mas lembre-se de ter cuidado com o que come, pois pode ser fatal.

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