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Manhã de natal.

Foto: "O gato do Suassuna"


 Tenho fotografado muito pouco. Bem menos do que gostaria de fato. Os textos também andam raros e ralos. Uma seca criativa? Acho que não. É bobice minha mesmo. Mas mesmo nessa "bobice", nada passa desapercebido ao meu olhar. A memória também funciona como deveria, creio eu. E com isso, hoje em plena manhã de natal, decidi arrumar a gaveta das chaves e da carteira, coisa que faço costumeiramente nas manhãs de feriados anuais. No fundo dela haviam duas moedas que decidi colocar no cofrinho de trocados do moleque. Separei-as, pondo-as na soleira da janela logo ao meu lado, e fiz isso sem qualquer intenção que não fosse depositá-las no tal cofre. Então, como de costume também, o bichano resolveu deitar na janela para sua soneca habitual. Do nada me deu uma sede tremenda, o que me fez levantar para pegar um suco de manga, afinal está um calor daqueles aqui no Rio. Quando retornei da cozinha e olhei a cena não tive como não lembrar de João Grilo e seu fatídico gato que descomia dinheiro. 

 É interessante como tudo o que admiramos permanece vivo em nossas memórias. Desde que conheci um pequeno pedaço da obra desse dramaturgo, ainda que tardiamente, fiquei encantado. Muitas das coisas que escrevo sempre remetem-me a ele. Se acreditasse de fato em heróis, talvez Suassuna fosse um deles, mas prefiro acreditar em referências, porque essas são de fato palpáveis e passíveis de existência. Heróis são mitos, fábulas, invenções da carência humana para justificar o vazio da existência. Diante disso, penso que estamos fadados ao fracasso enquanto basearmos nossa existência na dependência de heróis para consertar as cagadas diárias que cometemos. Se ao menos nossos heróis fossem como Chicó ou João Grilo, estaríamos mais próximos da realidade cotidiana, porque na dramaturgia, melhor exemplo de vencer qualquer adversidade que esse, ao menos para mim, não existe. Só mesmo a realidade diária daqueles que vivem na pele aquilo que lemos como "aventuras" nas páginas do Auto da Compadecida.


"Aí meu Deus do céu, morreu o pobre do João Grilo, um amarelo safado morrer assim, o que eu faço agora sem João? Não tem mais jeito, João Grilo morreu. Acabou-se o grilo mais inteligente do mundo. Cumpriu sua sentença, encontrou-se com o único mal irremediável, aquilo que é marca do nosso estranho destino sobre a terra, aquele fato sem explicação que iguala tudo o que é vivo em um só bando de condenados, porque tudo que é vivo, morre." 

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